Quarta-feira, 16 de Março de 2011

Nicolas Jaar



Space Is Only Noise
Circus Company, 2011

Outra feliz descoberta: Space Is Only Noise, de Nicolas Jaar. Com os seus ritmos «downtempo» e constantes surpresas sónicas, o álbum deste nova-iorquino de origem chilena (que confessa gostar de fado e morna cabo-verdiana), mergulha-nos numa atmosfera perturbadora e hipnótica propicia ao sonho e ao devaneio, a que apetece voltar amiúde. Custa a crer que o rapaz tem apenas 20 anos. Fiquei fã da elegãncia da sua música e dos seus propósitos.

Destroyer



Kaputt
Merge Records, 2011

O nome da banda (Destroyer) e o título do disco (Kaputt) dão a ideia de que vamos ouvir, no melhor dos casos, um rock abrasivo ou mesmo apocalíptico. Nada de mais errado. O disco dos Destroyer, ou melhor, de Dan Bejar (único mentor do projecto) é uma delícia pop, com grandes canções melódicas e luminosas, que foram procurar inspiração nos anos 80. Ao ouvi-lo vieram à memória os Prefab Sprout, LLoyd Cole, os Smiths, tudo boa gente. Gostei tanto que fui procurar todos os álbuns anteriores da banda, mas nenhum me pareceu á altura deste.

Terça-feira, 8 de Março de 2011

Natacha Atlas


Mounqaliba
Harmonia Mundi, 2010

Nascida em Bruxelas, filha de uma inglesa (convertida ao islamismo) e de um egípcio (nascido em Jerusalém), Natacha Atlas é, há já vários, uma das grandes divas da «world music». Sendo há muito seu fã, só agora tive ocasião de ouvir o disco que lançou o ano passado.
Gravado em Londres com a colaboração de um número generoso de músicos árabes e ocidentais, com destaque para o violinista Samy Bishai e a pianista Zoe Rhaman, Mounqaliba (que quer dizer qualquer coisa como «estar do avesso, ou de pernas para o ar»), é um álbum ambicioso, mas infelizmente desigual. Há temas que adoro, ao lado de outros que, francamente, não estão à altura. Entre as canções cuja audição recomendo estão duas «covers»: «Riverman», de Nick Drake e «La nuit est sur la ville», de Françoise Hardy, ambos deliciosamente jazzy. Mas as composições mais conseguidas, aos meus ouvidos, são mais classizantes e orientalizadas. Refiro-me, nomeadamente a «Makaan» e «Taalet», que quase me fazem levitar.

Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Anna Calvi


Anna Calvi
Domino Records, 2011

É evidente: o que primeiro chama a atenção é a sua beleza animal e o charme quase venenoso que destila um tal rosto. Magra, pálida, esta jovem inglesa, de origem italiana, parece ter nascido para atormentar. O que mais impressiona nela, porém, acaba por ser o seu talento.Como guitarrista, cantora e arranjadora. As suas canções, voluptuosas e contundentes, podem soar, no entanto, por vezes cruas, quase brutais, pois o seu rock é como ela: insidioso e tóxico. Não sei porque a comparam a PJ Harvey e Jeff Buckley, não tem nada a ver. Anna Calvi é mais abrangente; na sua música ouvem-se ecos de Ravel e Django Reinhardt, de Jimi Hendrix e Ravi Shankar, a par de Bowie, Cocteau Twins e Rolling Stones. Para já não falar de Edith Piaf e Nina Simone, que ela cita como exemplos. Não faço ideia do que ela fará no futuro, mas para já, este seu primeiro disco soa extremo e apaixonante. 2011 começou bem.

Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

The Jolly Boys


Great Expectation
Pias, 2010

Em 1942, quando se dirigia para as ilhas Galapagos no seu iate, Errol Flynn naufragou ao largo da Jamaica. O actor apaixonou-se por esse país e, cinco anos mais tarde, instalou-se em Port Antonio com a sua terceira mulher. Comprou um hotel, uma plantação de coqueiros e uma ilhota chamada Navy Island, onde se estabeleceu.
Para as suas memoráveis festas, o actor contratava uma banda, os Swamp Boys que, mais tarde, mudou o nome para The Jolly Boys. Pois bem, essa banda ainda existe e acaba mesmo de lançar um álbum, intitulado Great Expectation.
Não sei quem teve a ideia, mas é uma delícia ouvir os avôzinhos a cantar clássicos da pop e do rock imprimindo-lhes o seu ritmo próprio, o mento, tido como um antepassado do reggae. Entre as canções escolhidas contam-se «Passenger» e «Nightclubbing» de Iggy Pop, «Perfect Day» de Lou Reed, «Riders on the Storm» dos Doors), «You Can’t Always Get…» dos Rolling Stones, «Ring of Fire» de Johnny Cash e «Rehab» de Amy Winehouse. Em todas elas a voz cavernosa e incrível de Albert Minott, de 74 anos, faz maravilhas.
Errol Flynn tinha razão: «What a bunch of jolly boys !»

Domingo, 10 de Outubro de 2010

Lula Pena



Troubadour
Mbari, 2010

Saiu, finalmente, o novo disco da Lula Pena, Troubadour. Há anos que estava à espera dele. Na verdade, desde que ouvi Phados, já lá vai uma década. Esta obra de estreia tinha-me encantado. Finalmente alguém abordava o fado sem complexos de nenhum tipo, com a naturalidade de quem não corre atrás da fama ou do dinheiro, mas apenas de uma exigência interior.
Anti-vedeta por natureza, Lula Pena sabe que a única tarefa verdadeiramente urgente é amar, e fazer-se amar. A música para ela não é uma profissão, antes uma respiração ontológica, um veneno criativo que se alimenta de melodias e palavras. Digam o que disserem, considero-a a mais lírica e livre das portuguesas, a mais improvável e legítima herdeira de Amália Rodrigues (com quem, de resto, se parece fisicamente). Não da Amália diva, nem da Amália depressiva, mas da Amália habitada pela coragem e melancolia do povo que criou a palavra saudade.
As canções de Troubadour não têm título e prolongam-se livremente por sete actos (como no teatro), pois o disco é uma espécie de narrativa confessional, encantada e encantadora. Gravado em solo absoluto, é também um álbum visceral e intimista. Umbilical.
Sim, adoro a sua guitarra lânguida e a sua voz nocturna e hermafrodita, que ouço como me ouço pensar. Obrigado Lula Pena, valeu a pena esperar.

Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

Matthew Dear


Black City
Ghostly, 2010

Confesso que não conhecia Matthew Dear e que foi graças à Pitchfork que descobri o seu mais recente álbum, Black City. «Honey», o primeiro tema do disco surpreendeu-me imediatamente, com a sua cadência quase soturna. A voz cavernosa, o crescendo muito bem ritmado, a sobreposição de sonoridades envolventes, tudo me cativou. Um pouco mais «luminoso», «I can’t feel», o tema seguinte, pôs-me a abanar o capacete e a bater o pé com um sorriso nos lábios. Fiquei impaciente para ouvir o resto e passei à frente. «Little People (Black City)» não me desiludiu. Uma vez mais a electrónica estava ao serviço de um som orgânico, dançante e circular, no qual adorei deixar-me enredar. Pensei: «É tecno mas com vocação pop; tem «groove», «soul», um «feeling» bestial». Estava conquistado.
«Slowdance», a quarta faixa» é mais surpreendente. De início não se percebe onde quer chegar, mas quando entra a voz, a música volta a correr nas nossas veias, deliciosamente sombria e hipnótica. «Soil to seed» tem uma batida e um ritmo que me trouxe à memória os saudosos Morphine, não sei porquê. Tudo o que sabia, por essa altura, é que este disco não ia sair tão cedo do meu MP3. E ainda não tinha ouvido «You put a smell on me», seguramente o tema mais forte do álbum, com um ritmo obcecado e obsessivo, onde uma voz arrancada ao inferno nos arrasta para uma pista de dança (não sei se dança será a palavra certa) que só existe nas nossas cabeças e entranhas. Para mim, pelo menos, foi como um mergulho numa qualquer cerimónia vudu, onde eu estivesse sozinho com os fantasmas do Matthew Dear (já agora, que nome extraordinário!).
As canções seguintes (cançõesnão é seguramente é a palavra certa), «Shortwave», «Monkey» e «More surgery» é mais do mesmo: ou seja, música espantosa, nocturnal, mas de uma forma luminosa, tão contrastante como exaltante. Tudo acaba em beleza com «Gem», uma espécie de «torch-song» que talvez os Pink Ployd não desdenhassem. Só vos digo: há já algum tempo que não ouvia um disco que me arrebatasse tanto.