terça-feira, 21 de setembro de 2010

Matthew Dear


Black City
Ghostly, 2010

Confesso que não conhecia Matthew Dear e que foi graças à Pitchfork que descobri o seu mais recente álbum, Black City. «Honey», o primeiro tema do disco surpreendeu-me imediatamente, com a sua cadência quase soturna. A voz cavernosa, o crescendo muito bem ritmado, a sobreposição de sonoridades envolventes, tudo me cativou. Um pouco mais «luminoso», «I can’t feel», o tema seguinte, pôs-me a abanar o capacete e a bater o pé com um sorriso nos lábios. Fiquei impaciente para ouvir o resto e passei à frente. «Little People (Black City)» não me desiludiu. Uma vez mais a electrónica estava ao serviço de um som orgânico, dançante e circular, no qual adorei deixar-me enredar. Pensei: «É tecno mas com vocação pop; tem «groove», «soul», um «feeling» bestial». Estava conquistado.
«Slowdance», a quarta faixa» é mais surpreendente. De início não se percebe onde quer chegar, mas quando entra a voz, a música volta a correr nas nossas veias, deliciosamente sombria e hipnótica. «Soil to seed» tem uma batida e um ritmo que me trouxe à memória os saudosos Morphine, não sei porquê. Tudo o que sabia, por essa altura, é que este disco não ia sair tão cedo do meu MP3. E ainda não tinha ouvido «You put a smell on me», seguramente o tema mais forte do álbum, com um ritmo obcecado e obsessivo, onde uma voz arrancada ao inferno nos arrasta para uma pista de dança (não sei se dança será a palavra certa) que só existe nas nossas cabeças e entranhas. Para mim, pelo menos, foi como um mergulho numa qualquer cerimónia vudu, onde eu estivesse sozinho com os fantasmas do Matthew Dear (já agora, que nome extraordinário!).
As canções seguintes (cançõesnão é seguramente é a palavra certa), «Shortwave», «Monkey» e «More surgery» é mais do mesmo: ou seja, música espantosa, nocturnal, mas de uma forma luminosa, tão contrastante como exaltante. Tudo acaba em beleza com «Gem», uma espécie de «torch-song» que talvez os Pink Ployd não desdenhassem. Só vos digo: há já algum tempo que não ouvia um disco que me arrebatasse tanto.