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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Lucinda Williams



Essence
Lost Highway, 2001

Lucinda Williams é uma sobrevivente. Já superou um cancro na garganta e talvez por isso canta com uma voz rouca, quase rachada, que nos faz eriçar os pêlos do corpo todo. Essence, o sucessor de Car Wheels on a Gravel Road, de 1998, é, como o título sugere, quase só «pele e osso». Ou seja, tem um mínimo de notas para um máximo de significado. Impressiona a simplicidade dos arranjos e a sinceridade das letras, extremamente femininas mas que evitam todos os «clichés» do género, mesmo que a senhora não prescinda do chapéu à «cowboy» e de outros acessórios próprios da mitologia «western». Ao longo de onze faixas dolentes, música e letra revelam uma paixão pelo pormenor que trai um perfeccionismo apaixonado, cultivado desde há muito. Não surpreende por isso encontrar o nome de Charlie Sexton associado à produção do álbum. Sexton é, também ele, um músico exigente, que toca guitarra como se ela fosse um instrumento de precisão. Cada nota conta, e cada uma delas toca-nos fundo. Não hesito em afirmar: Essence é uma verdadeira obra-prima, um daqueles discos que ainda ouviremos daqui a muitos anos.

Lucinda Williams



West
Lost Highway, 2007

«All the sudden you went away (are you allright), I hope you come back around someday…» O disco abre-se num lamento e assim continua até ao fim, acabando num convite: «Come out west and see, the best that it could be.» West, que vem romper um silêncio de quatro anos (World Without Tears data de 2003), está marcado por duas perdas moral e fisicamente devastadoras: uma deserção amorosa e a morte da mãe. O novo disco não atinge o nível de Sweet Old World (1992) ou Car Wheels On A Gravel Road (1998), possivelmente os seus dois melhores trabalhos discográficos, mas contém um punhado de canções verdadeiramente perturbadoras, de tão comoventes e vividas. Musicalmente é irrepreensível, nomeadamente graças à produção do conceituadíssimo Hal Willner e à participação de músicos superlativos como Bill Frisell, Jim Keltner, Rob Burger e Tony Garnier, que vão enchendo de raios de luz, e solos instrumentais, os corredores sombrios onde ecoa a voz dorida de Lucinda Williams, uma das poucas cantoras indispensáveis da country actual.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Lucinda Williams




World Without Tears
Lost Highway, 2003

Car Wheels on a Gravel Road, publicado em 1998, pôs toda a gente de acordo. Com a sua mistura sofisticada de Delta blues e country no mais puro estilo Nashville, Lucinda Williams conseguiu agradar, ao mesmo tempo, a gregos e troianos. Já o admirável Essence, lançado em 2001, não teve a mesma sorte. Nem toda a gente foi sensível a tanto despojamento e elegância, e houve mesmo quem tivesse escrito que a sua voz soava «demasiado bonitinha». Pois bem, World Without Tears não corre esse risco. Aqui, até as inevitáveis canções de amor «sangram». Ouçam, por exemplo, «Atonement» - onde ela interpela directamente Jesus, para lhe pedir explicações - ou o roqueiro «Real Live Bleeding Fingers and Broken Guitar Strings», para se comprovar a visceralidade com que canta esta alma sofrida, capaz de escrever coisas como «Life is full of misery and pain... I love you more than this cruel world», mas também «You don't have to prove your manhood to me constantly. be my lover don't play no game, just play me John Coltrane». Impossível ficar insensível a tanto talento e charme.