sábado, 19 de janeiro de 2013
Zé Luís
Serenata
Lusáfrica, 2013
Quando ouvi Zé Luís pela primeira vez, não sabia quem ele era. Mas a verdade é que para nos apaixonarmos por uma voz, não precisamos de saber a quem ela pertence, porque o coração é o mais certeiro dos órgãos humanos: sabe distinguir instintivamente o bem do mal, o bom do mau e o feio do bonito. E não há, aos meus olhos, maior inteligência do que esta. Porque assim penso, para falar de Zé Luís, e do seu maravilhoso disco de estreia, não é preciso, nem convém, usar palavras caras e conceitos muito elaborados. Aqui, tudo é como tudo devia ser: simples e belo, profundo e cativante. Os músicos não sabem tocar senão as cordas mais sensíveis e quanto ao cantor basta dizer há muito que não ouvia um timbre tão bonito e uma forma de cantar tão espontânea e justa. Ouve-se e não se acredita: esta voz, impregnada de melancolia e sensualidade, que canta essencialmente a saudade, o amor e a amizade, é a de um senhor à beira dos 60 anos que até agora só cantava para amigos e familiares. Recentemente, este desconhecido, marceneiro de profissão, deslumbrou, quase sem querer, uma plateia internacional de profissionais da música, com uma tocatina informal à margem de um festival de música. O assombro na plateia foi de tal ordem que logo surgiu o convite para gravar um disco e a possibilidade, entretanto concretizada, de uma digressão pela Europa. Ou seja, Zé Luís está a viver um sonho que bem o pode levar a ocupar, muito em breve, um trono há muito vazio: o de «rei» da serenata cabo-verdiana.
quarta-feira, 16 de março de 2011
Nicolas Jaar

Space Is Only Noise
Circus Company, 2011
Outra feliz descoberta: Space Is Only Noise, de Nicolas Jaar. Com os seus ritmos «downtempo» e constantes surpresas sónicas, o álbum deste nova-iorquino de origem chilena (que confessa gostar de fado e morna cabo-verdiana), mergulha-nos numa atmosfera perturbadora e hipnótica propicia ao sonho e ao devaneio, a que apetece voltar amiúde. Custa a crer que o rapaz tem apenas 20 anos. Fiquei fã da elegãncia da sua música e dos seus propósitos.
Destroyer

Kaputt
Merge Records, 2011
O nome da banda (Destroyer) e o título do disco (Kaputt) dão a ideia de que vamos ouvir, no melhor dos casos, um rock abrasivo ou mesmo apocalíptico. Nada de mais errado. O disco dos Destroyer, ou melhor, de Dan Bejar (único mentor do projecto) é uma delícia pop, com grandes canções melódicas e luminosas, que foram procurar inspiração nos anos 80. Ao ouvi-lo vieram à memória os Prefab Sprout, LLoyd Cole, os Smiths, tudo boa gente. Gostei tanto que fui procurar todos os álbuns anteriores da banda, mas nenhum me pareceu á altura deste.
terça-feira, 8 de março de 2011
Natacha Atlas

Mounqaliba
Harmonia Mundi, 2010
Nascida em Bruxelas, filha de uma inglesa (convertida ao islamismo) e de um egípcio (nascido em Jerusalém), Natacha Atlas é, há já vários, uma das grandes divas da «world music». Sendo há muito seu fã, só agora tive ocasião de ouvir o disco que lançou o ano passado.
Gravado em Londres com a colaboração de um número generoso de músicos árabes e ocidentais, com destaque para o violinista Samy Bishai e a pianista Zoe Rhaman, Mounqaliba (que quer dizer qualquer coisa como «estar do avesso, ou de pernas para o ar»), é um álbum ambicioso, mas infelizmente desigual. Há temas que adoro, ao lado de outros que, francamente, não estão à altura. Entre as canções cuja audição recomendo estão duas «covers»: «Riverman», de Nick Drake e «La nuit est sur la ville», de Françoise Hardy, ambos deliciosamente jazzy. Mas as composições mais conseguidas, aos meus ouvidos, são mais classizantes e orientalizadas. Refiro-me, nomeadamente a «Makaan» e «Taalet», que quase me fazem levitar.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Anna Calvi

Anna Calvi
Domino Records, 2011
É evidente: o que primeiro chama a atenção é a sua beleza animal e o charme quase venenoso que destila um tal rosto. Magra, pálida, esta jovem inglesa, de origem italiana, parece ter nascido para atormentar. O que mais impressiona nela, porém, acaba por ser o seu talento.Como guitarrista, cantora e arranjadora. As suas canções, voluptuosas e contundentes, podem soar, no entanto, por vezes cruas, quase brutais, pois o seu rock é como ela: insidioso e tóxico. Não sei porque a comparam a PJ Harvey e Jeff Buckley, não tem nada a ver. Anna Calvi é mais abrangente; na sua música ouvem-se ecos de Ravel e Django Reinhardt, de Jimi Hendrix e Ravi Shankar, a par de Bowie, Cocteau Twins e Rolling Stones. Para já não falar de Edith Piaf e Nina Simone, que ela cita como exemplos. Não faço ideia do que ela fará no futuro, mas para já, este seu primeiro disco soa extremo e apaixonante. 2011 começou bem.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
The Jolly Boys
Great Expectation
Pias, 2010
Em 1942, quando se dirigia para as ilhas Galapagos no seu iate, Errol Flynn naufragou ao largo da Jamaica. O actor apaixonou-se por esse país e, cinco anos mais tarde, instalou-se em Port Antonio com a sua terceira mulher. Comprou um hotel, uma plantação de coqueiros e uma ilhota chamada Navy Island, onde se estabeleceu.
Para as suas memoráveis festas, o actor contratava uma banda, os Swamp Boys que, mais tarde, mudou o nome para The Jolly Boys. Pois bem, essa banda ainda existe e acaba mesmo de lançar um álbum, intitulado Great Expectation.
Não sei quem teve a ideia, mas é uma delícia ouvir os avôzinhos a cantar clássicos da pop e do rock imprimindo-lhes o seu ritmo próprio, o mento, tido como um antepassado do reggae. Entre as canções escolhidas contam-se «Passenger» e «Nightclubbing» de Iggy Pop, «Perfect Day» de Lou Reed, «Riders on the Storm» dos Doors), «You Can’t Always Get…» dos Rolling Stones, «Ring of Fire» de Johnny Cash e «Rehab» de Amy Winehouse. Em todas elas a voz cavernosa e incrível de Albert Minott, de 74 anos, faz maravilhas.
Errol Flynn tinha razão: «What a bunch of jolly boys !»
domingo, 10 de outubro de 2010
Lula Pena
Troubadour
Mbari, 2010
Saiu, finalmente, o novo disco da Lula Pena, Troubadour. Há anos que estava à espera dele. Na verdade, desde que ouvi Phados, já lá vai uma década. Esta obra de estreia tinha-me encantado. Finalmente alguém abordava o fado sem complexos de nenhum tipo, com a naturalidade de quem não corre atrás da fama ou do dinheiro, mas apenas de uma exigência interior.
Anti-vedeta por natureza, Lula Pena sabe que a única tarefa verdadeiramente urgente é amar, e fazer-se amar. A música para ela não é uma profissão, antes uma respiração ontológica, um veneno criativo que se alimenta de melodias e palavras. Digam o que disserem, considero-a a mais lírica e livre das portuguesas, a mais improvável e legítima herdeira de Amália Rodrigues (com quem, de resto, se parece fisicamente). Não da Amália diva, nem da Amália depressiva, mas da Amália habitada pela coragem e melancolia do povo que criou a palavra saudade.
As canções de Troubadour não têm título e prolongam-se livremente por sete actos (como no teatro), pois o disco é uma espécie de narrativa confessional, encantada e encantadora. Gravado em solo absoluto, é também um álbum visceral e intimista. Umbilical.
Sim, adoro a sua guitarra lânguida e a sua voz nocturna e hermafrodita, que ouço como me ouço pensar. Obrigado Lula Pena, valeu a pena esperar.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Matthew Dear
Black City
Ghostly, 2010
«Slowdance», a quarta faixa» é mais surpreendente. De início não se percebe onde quer chegar, mas quando entra a voz, a música volta a correr nas nossas veias, deliciosamente sombria e hipnótica. «Soil to seed» tem uma batida e um ritmo que me trouxe à memória os saudosos Morphine, não sei porquê. Tudo o que sabia, por essa altura, é que este disco não ia sair tão cedo do meu MP3. E ainda não tinha ouvido «You put a smell on me», seguramente o tema mais forte do álbum, com um ritmo obcecado e obsessivo, onde uma voz arrancada ao inferno nos arrasta para uma pista de dança (não sei se dança será a palavra certa) que só existe nas nossas cabeças e entranhas. Para mim, pelo menos, foi como um mergulho numa qualquer cerimónia vudu, onde eu estivesse sozinho com os fantasmas do Matthew Dear (já agora, que nome extraordinário!).
As canções seguintes (cançõesnão é seguramente é a palavra certa), «Shortwave», «Monkey» e «More surgery» é mais do mesmo: ou seja, música espantosa, nocturnal, mas de uma forma luminosa, tão contrastante como exaltante. Tudo acaba em beleza com «Gem», uma espécie de «torch-song» que talvez os Pink Ployd não desdenhassem. Só vos digo: há já algum tempo que não ouvia um disco que me arrebatasse tanto.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Karen Elson
The Ghost Who Walks
Beggard’s Banquet, 2010
Tinha-a ouvido no álbum Monsieur Gainsbourg Revisited, onde cantava, em duo com Cat Power, «Je t’aime, moi non plus». Mas não lhe prestei muita atenção, confesso. Com a publicação deste disco, fiquei a saber que Karen Elson é casada com Jack White, ex-White Stripes e actual Dead Weather. E também que a bela ruiva era, ou ainda é, não tenho a certeza, top model. Segundo ele próprio afirma, Jack sabia que a mulher tinha boa voz e que colaborava com uma «troupe» de cabaret, mas quando Karen, um belo dia, lhe mostrou algumas das canções que escrevera em segredo, ele caiu das nuvens, pois desconhecia por completo esse seu talento. Terá sido ele, de resto, quem a encorajou a publicar um disco. Este The Ghost Who Walks que acabo de ouvir, com tanto prazer.
Originária da região de Manchester na Grã-Bretanha, Karen vive actualmente em Nashville e é, muito naturalmente, que na sua música se cruzam influências da folk britânica, do cabaret e da country. Ela assegura que toda a vida cantou, que a música sempre foi o seu «jardim secreto», um refúgio indispensável para se reencontrar consigo mesma. Ouvindo o disco, acreditamos piamente: a voz é do outro mundo, e a música assombrosa. Com fantasmas destes, quero cruzar-me mais vezes.
terça-feira, 20 de abril de 2010
She & Him
Volume Two
Merge Records, 2010
Já entrou em episódios da série televisiva Weeds (quatro, entre 2005 e 2006), n’ Os Simpson (2008) e em Bones (2009), mas Zooey Deschanel é, essencialmente, actriz de cinema. Lembram-se de O Assassínio De Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford (2007), um filme de Andrew Dominik ? Zooey contracenava com Brad Pitt e Casey Affleck, na pele de Dorothy Evans, uma prostituta que namorou com o «traidor» que menciona o título do filme. Mais recentemente vimo-la em 500 Dias com Summer, de Marc Webb (2009), um filme delicioso que passou praticamente despercebido em Portugal.
As actrizes sempre gostaram de cantar e gravar discos. Podia multiplicar os exemplos, mas basta referir os nomes de Scarlett Johansson e Charlotte Gainsbourg, que muito recentemente lançaram discos muito bons. No entanto, nenhuma das duas tem verdadeiramente formação musical ou sabe compor. Zooey Deschanel, em contrapartida, para além de cantar maravilhosaente, toca piano, banjo e escreve canções. Desde 2008, a rapariga anima, ao lado do músico M. Ward uma banda folk chamada She & Him, que, há dois anos, lançou um primeiro álbum, intitulado muito simplesmente Volume One. Chega agora o segundo volume do quinteto (o duo é completado pelo baterista Rachel Blumberg, o guitarrista Mike Mogis e o baixista Mike Coykendall).
Zooey e Ward conheceram-se no set do filme The Go-Getter, de Martin Hynes (2007). O realizador pediu-lhes para cantar um dueto para a banda sonora do filme e a música escolhida foi «When I Get to the Border» de Richard & Linda Thompson. Ward ficou muito impressionado com a sua parceira, e mais ainda quando soube que ela também escrevia canções. Foi assim que nasceu o projecto She & Him.
Para quem gosta de country e folk alternativas, M. Ward não é um desconhecido: já colaborou com Cat Power, Norah Jones, Beth Orton e fez parte do projecto Monsters of Folk. Sobre o seu trabalho como produtor, M. Ward afirma: «…nesse papel, comporto-me como um fotógrafo : atento aos contrastes, procuro o equilíbrio entre a sombra e a luz. As canções de Zooey são ideiais para isso, pois balançam entre a melancolia e a alegria, entre o dia e a noite».
Zooey, por seu turno, comenta : «Sempre tive a impressão que cantar me permitia sentir certas emoções inacessíveis de outro modo. Basta-me trautear uma melodia para que caíam todas as barreiras, todas as carapaças com que a vida nos cobre».
Como já alguém disse, ouvir este disco é como visitar a mítica Califórnia dos anos 60, sobre a qual reinavam os Beach Boys e os The Mamas & The Papas. Mas She & Him vai mais longe do que isso: as suas canções são um prodígio de sereno romantismo, com as suas cascatas melodiosas que põem em relevo uma voz pela qual é impossível uma pessoa não se apaixonar. Uma voz onde irradia o sol e a lua se insinua amorosamente. Ouçam-na e encantem-se.
sábado, 17 de abril de 2010
Françoise Hardy
La Pluie Sans Parapluie
Virgin France, 2010
La Pluie Sans Parapluie é, ao que parece (não me dei ao trabalho de os contar) o 26º álbum da carreira de Françoise Hardy. Nada mau, para uma senhora que gosta de viver afastada do burburinho da fama e da espuma mediática! Na sua singeleza, o título do disco parece evocar o ditado popular «quem anda à chuva molha-se»; uma verdade universal que aqui soa como um convite: ouvi-la é como andar à chuva e ter um prazer imenso nisso. Banhei-me nesta voz, encharquei-me destas palavras e agora acrescento: «je ne vous aime pas», pois o amor é, por excelência, o território do bluf.
Repito: nunca Françoise cantou tão divinamente, ou então fui eu que envelheci bem: ouvindo-a parece-me que o tempo não passou, que estamos ambos, ela e eu, cada vez mais intemporais.Assinadas por Jean-Louis Murat, Arthur H, Calogero e outros compositores porventura menos conhecidos, o novo disco da Hardy (pois alguém duvida que seja uma ‘diva’) não traz nada de muito novo ao mundo, como não deixarão de assinalar os críticos encartados. Ainda bem, afirmo eu, veementemente. Quem gosta dela não está à espera (nem deseja) experimentalismos e inovações, mas sim de canções desta natureza: encantadas e encantadoras, eternas e totais. Dito isto, La Pluie Sans Parapluie é um álbum deliciosamente melancólico, e no entanto já primaveril; quanto mais o ouço, mais perto me sinto do Verão.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Tom Waits

Glitter and Doom Live
Anti, 2009
Glitter and Doom! Sacana do Tom Waits, só ele para arranjar um tal titulo! Dito isto, tenho duas boas razões para, logo à partida, celebrar a chegada de um novo disco dele: é duplo e foi gravado ao vivo. Mas há mais: a voz está mais cavernosa do que nunca e a sua música raramente soou tão essencial.
Glitter and Doom Live é uma daqueleas obras que nos dá a volta às tripas. Ouves aquelas histórias, cantadas daquela maneira, e pensas: “Está lá tudo, até o sangue de que são feitos os únicos sonhos que vale a pena ter e a esperma que entope as canetas de quem procura o indizível”.
Tenho com Tom Waits pelo menos esta coisa em comum: também a minha voz foi ao limite das suas possibilidades e se voltou do avesso. Só que a minha não se ouve e a dele dá a volta ao mundo, telúrica e arrasadora como é.
Nas últimas fotos (veja-se mais acima), acentuou-se o seu ar de sátiro. Não custa imaginar que esconde uma cauda nas calças e pés bífidos nos sapatos.
Ouçam este disco como se a vossa vida estivesse em jogo (é a única maneira do apreciar devidamente), atentem na reacção dos vários públicos (foi gravado em várias cidades) e digam lá se Tom Waits não é um inultrapassável animal de palco.
Kafka que me perdoe a heresia, mas cá para mim, se o Gregor Samsa d’A Metamorfose cantasse, o que ouviríamos poderia perfeitamente figurar, como "bonus track", neste Glitter and Doom Live.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Devendra Banhart

What Will We Be
Warner, 2009
Sobre o novo disco de Devendra Banhardt, a Time Out alfacinha afirma: «Devendra Banhart é um músico relativamente prolixo. De dois em dois anos deita cá para fora um disco e nunca lhe falta publicidade. O que não é de espantar, pois este homem soube construir para si, pelo menos desde 2004, uma “aura” especial. E a música? Ora é aí que a coisa se torna menos interessante. Depois de Rejoicing the Hands (2004) nunca mais foi a mesma. Resvalou para um tradicionalismo sem músculo e por lá tem ficado».
A Inrockuptibles tem uma opinião diferente: «Entouré d'amis, de planches de surf et de skate-boards, Devendra Banhart participe au réchauffement mondial des sens sur un album classique mais réjouissant». E conclui: «… lumineux et groovy, ce What Will We Be nous donne très envie de l’inviter au prochain apéro».
Por mim, tenho que o confessar : até há pouco tempo, embirrava um pouco com o sujeito. Não sei se por causa do seu ar de Jesus Cristo hippie, se devido ao facto de toda a gente o considerar uma espécie de guru da nova folk (alguns chama-lhe «freak folk»). Embora deteste toda a espécie de gurus, tenho gostado de quase todos os discos de Devendra Banhart e, devo dizê-lo sem mais demoras, ouvi este último com um sorriso nos lábios, do princípio ao fim, pois o disco é encantador e despretencioso, duas qualidades que cada vez aprecio mais.
sábado, 14 de novembro de 2009
Bill Callahan

Sometimes I Wish We Were an Eagle
Drag City, 2009
«Por vezes gostaria que fossemos uma águia», afirma Bill Callahan na capa do seu segundo álbum em nome próprio (durante muitos anos escondeu-se atrás do nome Smog). E, com efeito, se fecho os olhos ao ouvir a sua música, sinto-me lá em cima, no céu, de asas bem abertas, a planar sobre o mundo. Tenho consciência de como isto pode soar foleiro, mas asseguro-vos: foleira é que a música luminosa e planante de Bill Callahan não é. Pelo contrário, há poucas mais elegantes, inteligentes e... viciantes. Aos meus ouvidos pelo menos, o seu sentido musical está cada vez mais refinado. A idade trouxe-lhe a calma e «savoir-faire» que o seu talento exigia e eu, pelo menos, lucrei imenso com isso. Pelo que não hesito em declarar solenemente: Sometimes I Wish We Were an Eagle é, sem dúvida, um dos dez melhores discos do ano.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
The XX

XX
Young Turks/XL, 2009
O som, minimalista, sem efeitos especiais, parece vir de outro tempo. De repente, parece estarmos a ouvir os Young Marble Giants. Mas à voz da rapariga segue-se uma voz de rapaz. Tão nua e exposta uma como a outra. Parece que estão ambos na sua, que não cantam para nós mas para eles mesmos. Não procuram encher-nos os ouvidos, não perecem proclamar «somos os maiores», como o faz a maior parte das bandas que surgem agora. E isso é refrescante. E intriga.
A medida que avançamos no disco, vamos ficando seduzidos pela simplicidade dos arranjos e a sensualidade das melodias. As guitarras dir-se-ia que esvoaçam, as vozes acasalam-se nas nuvens e o charme opera dentro e fora de nós, pois vamos ficando cada vez mais envolvidos numa intimidade que não intimida, numa inocência que nos contagia. XX não é um disco para todos, como todos os discos que valem a pena.
Sei que são estudantes e londrinos. Quanto ao resto, o quarteto que se esconde atrás do nome The XX é, para já, um mistério. Não sei o que vão fazer a seguir, desconheço se o seu segundo álbum me vai agradar tanto como este; mas de uma coisa tenho a certeza: há muito que um álbum de estreia não me encantava a este ponto.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
The Fiery Furnaces

I'm Going Away
Thrill Jockey, 2009
Os Fiery Furnaces que são, para mim, uma das mais estimulantes bandas pop da actualidade, acabam de lançar um novo álbum. Intitulado I'm Going Away, o novo opus é, como toda a gente não se cansa de repetir, o mais convencional (na estrutura e na instrumentação) dos que publicaram até à data os irmãos Friedberger. Criado num apartamento de Nova Iorque com a ajuda de um laptop, o disco propõe uma dúzia de canções acessíveis, quase «fáceis», que parecem uma homenagem ao folk-rock dos anos 60 (Bob Dylan surge como uma das influências maiores). Alguns fãs já consideraram este trabalho um passo atrás na carreira dos irmãos Matthew e Eleanor. É um perfeito disparate. Mas se for essa a receita para fazer mais discos tão bonitos e agradáveis como este, que comecem a andar às arrecuas. Por muito que goste dos seis (ou sete) álbuns anteriores, não me importo nada.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Cornershop

Judy Sucks a Lemon For Breakfast
Ample PLay, 2009
Digamo-lo sem rodeios: para mim, os Cornershop já eram. Tanto mais que há sete anos que não produziam nada de novo. Por isso, quando li uma referência elogiosa ao seu novo disco, «Judy Sucks a Lemon For Breakfast», achei piada ao título, mas não liguei muito. Depois li outra, e outra ainda, e decidi dar-lhes uma oportunidade. Arranjei o disco (não vou dizer como) e ouvi-o sem preconceitos. Agora posso dizer que o novo opus (o quinto da banda indo-britânica formada por Tjinder Singh e Ben Ayres) não é nenhuma obra-prima, mas tem motivos suficientes para que recomende a sua audição.
Gostei especialmente das faixas onde sopra uma aragem «sixties» (há, entre outras, influências dos Beatles e dos Beach Boys, assim como uma «cover» de Bob Dylan que os Manfred Mann, no seu tempo, também cantaram). Aprecio igualmente a sábia e habitual mistura de sonoridades acústicas e electrónicas, muito bem embrulhada num espírito festivo que funde glam-rock, soul e Bollywood com humor, fantasia e elegância. Bravo!
domingo, 17 de maio de 2009
Jeffrey Lewis

Em Are I
Rough Trade, 2009
Jeffrey Lewis nasceu em 1975 e faz banda desenhada para pequenos jornais gratuitos do Lower East Side de Nova Iorque. Aí conta as suas pequenas aventuras quotidianas, a que chama «The Downtown Observer». É também músico e as suas letras, onde explora, com uma lucidez muito ácida, as suas próprias inseguranças e neuroses, já levou alguém a escrever que Jeffrey é «uma mistura de Woody Guthrie com Woody Allen».
Em Are I, o seu quarto álbum, é o mais eclético que jamais publicou. «Slogans», a primeira faixa quase me fez pôr o disco de lado. Demasiado punk rock para o meu gosto. Felizmente «Roll, bus roll», a canção seguinte «agarrou-me» logo com a sua melodia bem catchy. É Jeffrey Lewis no seu melhor, com uma letra bem-humurada que fala da cidade onde vive e dele próprio. A certa altura diz: «I wasn't design to move so fast, i wasn't design to have so must past...». Como podia eu não ficar conquistado?
O álbum está recheado de grandes canções e momentos felizes, com baladas insidiosas como «It’s Not Impossible» ou «Bugs & Flowers». Mas o mais interessante está talvez nas composições mais trabalhadas e ambiciosas, nomeadamente o frenético e empolgante «The Upside-down Cross» (um tema groovy e psicadélico que mistura electrónicas várias, guitarras eléctricas endiabradas e instrumentos acústicos como o piano e o trompete, usados sem moderação) e o exuberante «Mini-theme: Moocher From The Future», espécie de mini-ópera country que faz referência ao 11 de Setembro, com uma orquestração «luxuriante».
Não me custa nada a acreditar que Em Are I venha a ser o disco que vai Jeffrey Lewis conhecido fora dos circuitos restritos da folk alternativa.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Bob Dylan

Together Through Life
Columbia/Sony, 2009
A quase totalidade dos críticos, pelo menos dos que tenho lido, parece estar de acordo que Together Through Life é um Bob Dylan «menor». O mesmo se tem dito de outros álbuns seus recentes e, curiosamente, o mesmo se diz de quase todos, senão todos, os últimos filmes de Woody Allen. Claro que não se trata de uma coincidência, um e outro já não têm nada a provar ao mundo, podem dar-se ao luxo de fazer o que lhes dá na real gana. Num caso como no outro, não precisam do dinheiro, se continuam a realizar discos e filmes é porque lhes está na massa do sangue e porque, obviamente, isso lhes dá gozo. Seja como for, um Bob Dylan «menor», ou um Woody Allen menos conseguido, valerão sempre mais, muito mais, do que a maior parte das obras que os mesmos críticos apodam de geniais, só porque todas as semanas querem ser os primeiros a apontar o futuro da música, do cinema ou seja do que for.
Para mim, que cada vez gosto mais do que é visceral e despretencioso, Together Through Life (tal como os últimos discos de Ry Cooder ou J. J. Cale), é uma pequena maravilha, com o seu som «negro», remeniscência do seu (nosso) amor pelo blues, a soul, a country e o rock'n'roll dos anos 50. E adoro o facto de se ter deixado contaminar por influências vindas do lado errado da fronteira dos EUA (David Hidalgo dos Los Lobos assegura com o seu acordeão o feeling tex-mex de algumas faixas).
Dylan que nunca escondeu o quanto gostava de Son House, Leadbelly ou Willie Dixon, sempre afirmou que procurava escrever canções como Woody Guthrie ou Robert Johnson: «intemporais e eternas». Há muito que cumpriu esse desígnio, pelo que já só lhe peço que continue a fazer os discos que muito bem quiser. Porque, em música como noutras coisas, poucas coisas me dão mais prazer do que me deixar possuir pelo prazer dos outros.
sábado, 25 de abril de 2009
Lhasa

Lhasa
Warner, 2009
Nasceu no estado de Nova Iorque, mas tem sangue mexicano. Em 1997, deu-se a conhecer ao mundo com um disco intitulado La Llorona, que era uma óbvia homenagem à música mexicana e muito em particular a Chavela Vargas. Seis anos mais tarde, publicou The Living Road, outra obra prodigiosa onde cantava, em espanhol, inglês e francês, «torch songs» infecciosas, com uma voz sensual e sofrida que fez dela, instantaneamente, uma das nossas cantoras preferidas. Foram precisos mais seis anos para Lhasa voltar a gravar. O resultado está aí, num disco sem título, agora inteiramente cantado em inglês, que é, sem dúvida, o seu álbum mais íntimo e perturbador. Para lhe fazer justiça é preciso gostar de canções tristes e crepusculares (onírico e solitário, o álbum já foi descrito como uma viagem ao fim da noite). Gravado num estúdio analógico, em apenas duas semanas, com os músicos a tocarem «ao vivo», o disco é um líbelo anti-perfeccionista: uma obra despojada, essencial que, infelizmente, só alguns conseguirão apreciar devidamente.
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